Review: O Grande Gatsby

Imagem: Warner Bros Pictures

Imagem: Warner Bros Pictures

Crítica por: João Loff

“Em 1997 o nome de Baz Luhrmann irrompeu pelo mundo do celulóide com um magnífico e flamejante “meteorito” de cinema – “Romeo + Juliet” adaptação pop, actual e estilizada do clássico de Shakespeare, brindado por fulgurantes imagens, cenários, edição e banda sonora, afirmando da mesma forma ao mundo que um gigante acabara de chegar – Leonardo DiCaprio, premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim pelo seu colossal e atormentado Romeu. Antes deste filme, já Luhrmann gerara alguma atenção com “Strictly Ballroom – Vem Dançar”, pequeno e delicioso filme sobre o mundo das danças de salão, onde era bem visível a paixão do realizador pelas artes de palco. Alguns anos depois, com maior orçamento e expectativa, o cineasta presenteia o mundo com “Moulin Rouge” – mosaico fantasiado e hiperactivo do famoso cabaré parisiense, onde um mundo ácido de uma paris boémia imaginára foi tão aplaudido quanto foi alvo de críticas pelo elevado nível de artificialismo e barroquismo formal que acabavam por afastar os menos crentes no mundo que Luhrmann criou a partir da realidade histórica, e onde de resto me incluo.

Não obstante, o filme receberia 8 nomeações para os Óscares e seria considerado em vários círculos como um dos filmes do ano, destacando-se o sucesso da sua banda sonora, onde êxitos da pop dos últimos 30 anos se viam transfigurados para a época, criando um ecletismo over-the-top que chegou mesmo a colocar Nirvana ao barulho. Após 7 anos de interregno (e de um biopic falhado sobre Alexandre, O Grande com DiCaprio), Baz volta à carga com uma carta de amor ao seu país natal, criando “Australia”, épico passado na aurora da segunda grande guerra e que, confirmando a tentação do realizador pelo pastiche, tentou decalcar “E Tudo o Vento Levou” num filme onde o gigantesco orçamento não compensava a sua falta de originalidade, um tom brando em algo que se desejava bombástico. Chegados a 2013, surge o novo “magnum opus” do realizador australiano. E desta vez, esperava-se algo mais substancial onde o filme anterior falhava: uma adaptação de um dos mais conhecidos e apreciados livros da literatura norte-americana, retrato dos loucos anos 20 antes da depressão, mosaico algo crítico da frivolidade reinante na altura em contraste com a solidão da sua personagem principal: Jay Gatsby – marcando a reunião de realizador e actor. Algo prometia, de facto. Mas entre prometer e cumprir, está a distância da execução.

E tudo aquilo que haveria a temer nesta premissa acabou por tomar conta da experiência. Não posso deixar de apreciar algum do feeling dos anos 20, uma época fantástica a nível de arquitectura e design. Não posso deixar de apreciar algum deslumbre pelas cenas de festa, pelos planos digitais de uma Nova Iorque nocturna e idealizada. Mas não me foi possível apreciar nada mais. Senti, finalmente, que o criador foi vitima da criação. Na sua obsessão por imprimir o seu estilo próprio em tudo o que faz, na sua fixação por transformar realidades históricas em idealismos exacerbados, na sua demanda em criar um híbrido das suas obras anteriores, criando uma amálgama de CGI, anacronismos e emoções impostas pela história, Baz Luhrmann descurou o mais importante: a alma. O resultado é um filme longo, cansativo, hipercinético em tudo o que foi colado à história original e atrapalhado nas cenas que pertencem à narrativa base, que se perde na incapacidade do realizador em focar-se no seu objectivo, que nunca é claro. Fica a impressão que todo o propósito foi de facto encenar as tais opíparas festas dos “Roaring 20’s”, dando muito pouca importância a tudo o resto. E quando as festas se desvanescem, o que fica? Leonardo DiCaprio, na pele de um homem aparentemente poderoso mas embaraçado perante o seu amor de sempre, que encarna de tal forma a sua personagem que o próprio actor parece confuso sobre onde ir e o que dizer. Toby Maguire, permanentemente fascinado com o que o rodeia mas com o carisma de um candelabro. Carey Mulligan, lindíssima mas sem sal. E Joel Edgerton, que protagoniza uma subplot que parece fazer parte da obra literária onde o filme se baseia, mas que aqui surge desconchavada, desconexa do corpo geral do filme, colada à pressa e sem tacto para resolver linhas narrativas que vagueiam à deriva.

Odeio admitir, porque queria mesmo que assim não fosse, mas a certo ponto deixei de ligar ao que estava no ecrã, e comecei a apreciar o desastre: um casting extraordinário, um budget elefantíaco, óptimos artesãos e tão pouco apelo, tão pouco élan, tão pouco cinema. Salve-se talvez a banda sonora, construída numa lógica de anacronismo pop à maneira de Moulin Rouge e que sem dúvida venderá milhares de cópias. Quanto ao resto, faltou aquele lado fundamental a qualquer filme: “suspension of disbelief”. Quando isso falha, o filme está condenado. E Baz Luhrmann, pelo caminho, espalhado ao comprido. O que é pena, porque a paixão pelo espectáculo é visível mas, como Michael Bay, quando o objectivo é ser contido e não espalhafatoso e gigante, o resultado está à vista. Quem sabe, talvez siga as passadas de Joel Schumacher, que depois do descalabro de “Batman and Robin” se virou para produções menores e criou “Tigerland”, um dos seus melhores filmes. Façamos figas.”

Crítica por: Helena Rodrigues

“Não tendo livro, fiquei com vontade de lê-lo depois de ver o filme. Uma história de amor vivida e sofrida por um homem. Um homem que se recusava a ser pobre e que de tudo fez para chegar ao topo e chamar de volta o seu antigo amor. Baz Lurhmann é o realizador perfeito para trazer a história de Gatsby para a tela. O cenário são os anos 20, numa sociedade obcecada com dinheiro, luxos, champanhe, festas, dinheiro a voar… e Baz consegue conter toda essa arritmia na suas cenas exuberantes e frenéticas, com a ajuda de uma banda sonora que nos prende e nos faz mergulhar nas sensações profundas e superficiais do filme. É uma sátira ao materialismo e à superficialidade a cada minuto. Gatsby entrou nesse mundo podre apenas para deslumbrar e conquistar de volta a sua Daisy. Ele pode ter tudo à sua volta, mas toda a sua riqueza só faz sentido se Daisy desfrutar da mesma. O irónico é que, apenas nós, o público e o seu único amigo Nick (Tobey Maguire) conseguem perceber que a única riqueza para Gatsby é o amor de Daisy. Admito que senti pena pelo homem que tudo tinha, mas nada do que tinha era para ele, mas sim para ela. E quando nos despimos das roupas finas e dos acessórios caros, quando dispensamos os convidados, arrumamos os copos de cristal e deitamos no lixo as garrafas de champanhe, ficamos com uma casa vazia, sem uma voz calorosa que nos chame de uma das divisões. É uma sátira à cegueira a que nos sujeitamos quando pensamos no material, cegueira que nos impede de reconhecer que temos ao lado um amigo que pode valer muito mais do que… qualquer coisa em que pensem. É um amor melancólico no meio de uma feira de vaidades. Uma interpretação fantástica de Leonardo DiCaprio, que muito embora interprete uma pessoa misteriosa, deixa-nos entrar no seu coração e mostra-nos todas as suas vontades, esperanças, medos, desespero e um amor imensurável… Tobey Maguire, embora sendo uma personagem secundária, acaba por ser um dos mais importantes neste conto, pois a sua personagem é quem se importa com Gatsby, com quem, pela primeira vez, Gatsby cria uma amizade onde não lhe é pedido nada em troca… Enfim, uma história inspiradora no meio de uma crítica dura à futilidade… saí do cinema a pensar no que realmente importa e no que há “do outro lado da baía” para mim, em qual será a “luz difusa e distante” que quero alcançar e o que estou disposta a fazer para alcançá-la. Isto da baía e da luz só compreenderão se virem o filme ;) E mais não digo, pois acho que já divaguei de mais” – Helena Rodrigues