Review: A Praia

59717_Papel-de-Parede-A-Praia-The-Beach_1024x768Crítica por:  João Loff

“Quantos de nós não sonhamos em escapar? Quantos de nós não sonhamos largar o computador, o horário, o acordar cedo, a vida formatada e seguir algo que não conhecemos? Quantos de nós morrem sem nunca ter tentado?

Eis Richard, sem apelido, sem história, viajante norte-americano, personificação de todas as dúvidas supra-referidas, acabado de aterrar em Bangkok, “good time city onde os famintos se vêm alimentar”. Em busca de algo “mais visceral, mais real, mais perigoso”. Na verdade, nada o garante: como a sua incessante narração o assegura, os vícios ocidentais que nos fazem atravessar milhares de quilómetros para assegurar os confortos que temos em casa acabam por revelar que os turistas são os mesmos em todo o lado, e que para ele terá de haver algo diferente.

Richard procura a aventura num mundo cada vez mais formatado. Mas estará preparado para largar tudo e abraçar o grande desconhecido? E ao descobrir que o ouro no fundo do arco íris não é tão brilhante quanto julgávamos, quererá ele ficar? Quererá ele guardar o segredo?

E é talvez por essa questão primordial que o filme encontra a sua “raison d’être”. Que faríamos nós para guardar o nosso pedaço de paraíso? Altamente imersivo e brindado com uma direcção de fotografia extraordinária, “The Beach” é um mergulho de cabeça em territórios que muitos de nós nunca pisarão, e que na verdade temos medo de pisar.

Rodado numa altura em que Leonardo DiCaprio ainda era por muitos visto como um ídolo “teen” e apenas um palminho de cara, o mesmo manda um volte-face nas expectativas e constrói uma personagem complexa e densa, que leva às costas um filme que de outra forma poderia cair na categoria de wallpaper de alto orçamento.

A nível pessoal sempre exerceu em mim um estranho fascínio, e tem estado presente ao longo dos anos. Quase a chegar aos 15 anos, é curiosamente um filme cada vez mais actual – será que a ausência total de tecnologia e de comunicação é verdadeiramente aquilo que queremos num mundo saturado de digitalismo? A rever.”