Review: Rush – Duelo de Rivais

 

POSTER rush duelo de rivais

Crítica por João Loff:

“Comecemos pelo ponto mais primordial: andava há anos à espera de um filme sobre a Fórmula 1, e sinceramente nunca percebi como é que a prova rainha do automobilismo não tinha chegado ao grande ecrã num filme digno desse nome. Salivei na sua devida altura pelo biopic de Ayrton Senna protagonizado por Antonio Banderas que durante anos andou nos corredores do boato, contentando-me pelo caminho com a versão de “Michel Vaillant”, que apesar de ter estilo em barda foi demasiado low profile e descartável. Não esqueçamos no entanto o fabuloso documentário “Senna: Beyond the Speed of Sound”, emocionante retrato do malogrado campeão brasileiro, que arrumou de vez com qualquer filme biográfico sobre o piloto.

Há cerca de ano e meio, as notícias chegaram: Ron Howard filmava um filme à volta do campeonato de 1976 e do despique entre Niki Lauda e James Hunt. Se muitos conhecem o primeiro, três vezes campeão mundial e protagonista de um terrível acidente em Nurburgring, menos conhecerão talvez o segundo, símbolo indelével do desportista “bon-vivant” da época, vivendo uma vida de excesso, dinheiro e glamour, saboreando o presente e nunca pensando no futuro. E a dicotomia clara entre estas duas figuras será talvez o primeiro grande trunfo de “Rush” – de um lado temos um homem metódico, assertivo, frio, desprovido de humor, quase autista. Do outro, um galã, desfrutando ao máximo da juventude, vivendo a 300 Km/h, aceitando, como um samurai, que o próximo dia na pista pode ser também o último.

Noutras mãos, duas personagens tão sumarentas facilmente cairiam no registo da caricatura. Não é o caso. E se o mérito é em grande parte dos actores (se há justiça na politiquice de Hollywood, Daniel Bruhl é já um dos fortes candidatos ao Óscar), Ron Howard merece sem sombra de dúvida os louros pela incrível orquestra que colocou em harmonia, não cedendo ao politicamente correcto e criando um dos seus melhores filmes. E se o trabalho com actores é excelente, o retrato que faz das corridas em si é estarrecedor. As câmaras multiplicam-se, viajam dentro dos carros, dentro dos capacetes, entram dentro da roda, do motor, do asfalto. É o circo da Fórmula 1 em todo o seu esplendor, numa altura em que a electrónica ainda não tinha tomado conta dos veículos e a corrida se decidia em função da mecânica, do talento, da arte de conduzir. Mas não é apenas um filme para fanáticos do automobilismo. O objectivo é maior. E para isso, Howard rodeou-se de artesãos talentosos, que brilham a cada frame: os actores, principais e secundários, que se transfiguram, o argumentista Peter Morgan (Frost / Nixon, The Queen), autor de um argumento que nunca nos deixa tomar partido entre os dois protagonistas,  o director de fotografia Anthony Dod Mantle  (Slumdog Millionaire, 127 Horas, Dredd), que cria uma extraordinária “patine” setentista de raiz televisiva que nos transporta para a época, e o mítico Hans Zimmer (Batman, Pirates of The Caribbean, Inception), criador de uma banda sonora vibrante, rica e emocional.

Estamos assim perante um triunfo, um clássico drama desportivo à moda antiga que foge das convenções habituais e que encontra numa velha história de rivais o sumo da sua existência. O tempo dirá se Rush merecerá os aplausos da crítica. Dentro do clássico prazer de ver cinema, ainda não encontrei mais nada assim este ano. E ainda não sei se vou encontrar.