Review: Gravidade

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Crítica por Helena Rodrigues:

“Depois de ouvir opiniões divergentes acerca deste filme também eu acabei por sentir um misto de sentimentos: receio e curiosidade. As opiniões mais positivas que ouvira vieram de pessoas que viram o filme de Alfonso Cuarón num cinema, numa sala IMAX e em 3D. As reacções eram estrondosas, principalmente em termos de realização.

Confesso, gosto de opinar sobre filmes de uma perspectiva pessoal, mas não sou nenhuma entendida tanto em realização ou representação. Opino sobre o que vejo e o que sinto. Adianto que vi este filme em casa, a meia-luz, num ecrã de TV razoável, por isso não tive, de longe, a experiência cinematográfica de que tantos falaram, mas posso dizer o seguinte: em termos visuais, o filme conquista. A meu ver é bastante convincente a presença das personagens no espaço. A luz, as cores, o movimento dos actores, os sons (ou falta deles) tudo isso 5 estrelas. No começo da trama, quando vemos uma Sandra Bullock a “rodopiar” no vazio tentando segurar-se a algo que não existe, tentando parar algo que não consegue… sim, é impossível não pensar se estivéssemos naquela situação. Após tanto treino físico e psicológico, só a ideia de nos perdermos no vazio e na escuridão para sempre… como seria? E foi esse primeiro momento de tensão que me cativou, que “mexeu” comigo. No entanto, foi dos poucos. Tirando todos os efeitos visuais do filme, na minha opinião o argumento era pobre. Os diálogos fracos e pouco convincentes. Fiquei triste por ver o George Clooney a ser o “típico” George Clooney, mas no espaço, com pequenos momentos de “flirt” completamente fora do contexto…mas pelos vistos é algo que temos de esperar dele, seja em que sítio for. A Sandra esteve bem, mas não achei que houvesse muito que ela pudesse fazer para impressionar. Sim, notamos uma pequena evolução da personagem. No início parece frágil e derrotista e depois inicia uma luta pela sobrevivência. Mas tudo isso se perde pelo caminho. Não achei o enredo brutal e os diálogos pouco profundos. Não consegui criar nenhuma empatia por nenhuma das personagens.

Compreendo porque é que o filme ganhou muitos prémios de nível técnico, mas também compreendo porque falhou todos os outros.”

 

Crítica por João Loff:

“Vamos ver um filme ao cinema. Saímos de casa, chegamos ao local, compramos o bilhete e sentamo-nos entre outras pessoas numa sala, maior ou menor, em que uma das paredes é ocupada quase na totalidade por um ecrã. Perdermo-nos por duas horas, entrando de cabeça em mundos que por vezes nos são completamente alheios e inacessíveis. Entramos nesses mundos, com maior ou menor prazer, abstractos da realidade lá fora, adiando o mundo durante o tempo que ali passamos. Para nos distrairmos? Para emergirmos? Para sentir que vivemos realidades paralelas? Para imergir? Muitas respostas há. Mas poucas equiparadas ao que é possível hoje viver na sala Imax 3D do Cinemas Zon Lusomundo Colombo. Com que filme? “Gravity” de Alfonso Cuarón.

Esta é assim uma crítica direccionada, por uma vez, mais para a experiência do que para a obra cinematográfica. E que experiência. Nunca imaginei um dia entrar num centro comercial e ser levado para a órbita terrestre, mas é exactamente o que se passa aqui. O filme abre com um complexo e audaz plano-sequência de 17 minutos, que põe a premissa em marcha e que promete ser um dos grandes momentos cinematográficos deste ano. O que acontece em seguida é algo de miraculoso – começando pela fé restaurada no cinema em 3D (do qual eu já desistira há algum tempo), como também na capacidade que a técnica parece ter ganho para criar emoções – desta feita através do ponto de vista da personagem de Sandra Bullock e da sua relação de amor com a câmara, umas vezes real, outra virtual, que a segue quase sempre, que gira à volta dela, que entra dentro do capacete para nos brindar com planos na primeira pessoa. O resultado é uma autêntica experiência imersiva, um sufoco permanente de protagonistas e público perante a mais extrema das circunstâncias – astronautas perdidos no espaço, desesperados pela salvação, agarrando-se às mais ínfimas circunstâncias pelo mais elementar instinto de sobrevivência. E é a vida, o modo como lutamos por ela e como ela continua, o coração desta obra. Mesmo que a certo ponto questionemos alguns elementos de um guião que procura realismo, mas que empola algumas circunstâncias pelo valor dramático e acaba por encarreirar em alguns mecanismos desnecessários e perfeitamente dispensáveis. E é talvez aí que o filme perde alguma da excelência que lhe seria devida. Mas não nos deixemos enganar por isso, porque “Gravity” é uma das experiências mais extraordinárias que alguma vez existiram e existirão numa sala de cinema.

Vê-lo no maior ecrã que se tiver à disposição é simplesmente obrigatório. Muitos filmes de parques temáticos podem tentar replicá-la, mas não têm a alma ou o drama que aqui é adicionado em carradas – se bem que talvez em demasia. As futuras edições em Blu-Ray, ou mesmo em home cinema 3D, nunca lhe farão justiça. Não cedesse a tentações de última hora, e poderia até ser equiparado a “2001”, de Kubrick. Mas este é um filme de estúdio, com objectivos comerciais bem definidos, não esqueçamos, e os tempos são outros. Palmas, mesmo assim, não só para a criatividade visual e capacidade de mise en scène anti-gravitacional de Cuarón (de todos os realizadores actuais, alguém imaginaria um mexicano a manufacturar um filme assim?), para a forma como a animação por computador é impressionantemente realista, para o modo como a gravidade zero simulada não nos faz duvidar uma única vez que estamos realmente em órbita. Mas sobretudo, ovações para a prestação de Sandra Bullock, heroína relutante, protagonista estóica, sempre superior perante a câmara e sempre convincente no que faz e comunica. Começam a surgir fortes concorrentes para a temporada de prémios cinematográficos que sucede entre dezembro e março.

Qualquer uma das 99,9999% de pessoas no mundo que nunca vai estar em órbita nas suas vidas tem agora uma oportunidade de, por um preço irrisório, sentir a experiência em primeira mão, até 30 de Outubro. Simplesmente imperdível.”

 

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