Review: Jobs

JOBSposterCrítica por: João Loff

“Até “The Social Network”, de David Fincher, os “biopics” costumavam deixar passar alguns anos de lenda até que as histórias neles retratadas marinassem nas ondas do tempo. No entanto, talvez reflexo da crónica crise de ideias que assola a indústria americana, os filmes-retrato são cada vez mais um recurso cinematográfico e retratam realidades cada vez mais próximas. Só em 2013, foram já 17 os filmes lançados internacionalmente cujos protagonistas foram personagens reais. Os resultados são, muitas vezes, mistos, e costumam trazer acoplados, senão sempre grande cinema, pelo menos magníficas entregas dos protagonistas, encarnando personagens mais ou menos conhecidas, que outrora foram reais – veja-se “The Queen”, “Lincoln”, “Ray” e “La Môme”, cujos actores principais foram todos vencedores do Óscar. Infelizmente, anos e anos de Biography Channel têm um peso nessas mesmas obras. Criam hábitos nefastos, facilitistas, inócuos. Usam música sentimental para evitar o zapping do espectador. Com alguma mágoa, constato que “Jobs” está minado com tudo isto. O material era mais que sumarento – ao morrer de cancro em 2011, o mago da tecnologia que impulsionou a Apple para o Olimpo das empresas globais tornou-se automaticamente uma lenda. Sem se perder muito tempo, os direitos da biografia foram rapidamente negociados e transpostos para o ecrã. Talvez demasiado cedo. O resultado sofre disso mesmo. Parece feito à pressa, confiando em pleno no valor do mito e da lenda para ter valor. O próprio Ashton Kutcher faz o seu melhor, mas a fantástica parecença física que tem com o pai do iPhone simplesmente não é suficiente para colmatar um filme que não passa de um relato de acontecimentos, nunca optando por deslindar a personagem principal, as suas motivações, ideias, fraquezas, medos e fantasmas. Steve Jobs não era apenas um homem de negócios brilhante: era sobretudo um inventor. Não teria sido mais interessante retratá-lo como um Da Vinci da era digital?”