Review: Behind The Candelabra

candelabraCrítica por: João Loff

“A homossexualidade (sobretudo a masculina) é um assunto que continua a ter o seu quê de tabu em sociedades modernas onde seria expectável (e recomendável) uma maior abertura de espírito e de valores perante as opções de cidadãos livres. Tal ainda não é o caso nos EUA, cujo restrito e tão conhecido sistema de rating de filmes domina os conteúdos de todos e quaisquer filmes que almejem uma distribuição comercial no país. Isso ramifica, naturalmente, para as decisões dos estúdios, que encontram reticências em financiar certo tipo de conteúdos. Quando Steven Soderbergh decidiu adaptar as memórias de um dos amantes de Liberace, conhecido pianista e entertainer de Las Vegas, muitas das respostas negativas tiveram como justificação o facto do filme ser “demasiado gay”, mesmo tendo assegurado desde há muito a participação de Michael Douglas, com quem trabalhara em “Traffic”, e Matt Damon, participante assíduo da trilogia “Ocean’s Eleven”. Assim, o realizador, de créditos firmados e com vários sucessos no currículo, viu-se a braços com um orçamento reduzido e forçado a realizar “Behind the Candelabra” como um telefilme. Numa era em que a ficção televisiva americana está a dar cartas em relação ao cinema (e a acolher argumentistas e histórias que fazem muita falta a este último), é irónico que seja também a TV a acolher conteúdos mais “arriscados” como esta história de um amor artificioso, físico e engalanado entre um artista já na curva descendente e o seu jovem “protégé”, que se deixa seduzir pela opulência. Soderbergh, de quem já conhecemos filmes tão diferentes em estilo, não se deixa encantar pelo barulho das luzes, e age como um cúmplice silencioso destas duas figuras, quase desligadas do mundo numa mansão de “kitsch palaciano”. Damon e Douglas são nada menos que gigantes. Tire-se o chapéu sobretudo a este último, que depois de uma terrível doença que quase lhe roubou a vida aceitou lidar com um dos seus papéis mais arriscados de sempre. Douglas é simplesmente incrível, num papel que noutras mãos (e nas mãos de outro realizador, diga-se) teria tudo para dar errado. Elogie-se também Matt Damon, no papel de querubim encantado e protegido que flutua como um peixe levado pela onda, apenas para perceber as consequências de certos actos, e já agora, menção especial a Rob Lowe, hilariante como cirurgião plástico por baixo de uma face completamente inexpressiva e afectada. Sólido filme com excelentes actores, tanto principais como secundários.”