Review: Mommy

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Crítica por: André Gomes

“O cinema de Xavier Dolan, ainda que inconsciente disso no início, é um cinema que questiona e manipula a linguagem para expressar algo que seria, em última instância, banal. A ele interessam as histórias quotidianas, os personagens comuns e o extraordinário encontrado ali pelo rebuscamento da forma cinematográfica.

Do enquadramento “artístico” (o filme é todo projectado numa janela 1:1, quadrada, com excepção de duas cenas), para dar ao espectador uma sensação de claustrofobia e urgência, às actuações “à flor da pele”. Uma maneira de visionamento diferente do habitual.

O filme passa-se no Canadá, antes do filme começar, um texto informa que, numa realidade alternativa, uma nova emenda na lei canadense permite que os pais de filhos com problemas comportamentais, em caso de desespero económico, abandonem-os em qualquer hospital público.Xavier Dolan é controlador demais, exacto demais, para que essa informação seja gratuita, para que o dilema se possa resolver sem que ela seja usada.

A história é forte e obscura demais para que o realizador se pudesse misturar nela e sair ileso. Em vez disso, temos a sublime actuação de Antoine-Olivier Pilon, violento, perigoso e infantil na medida certa. Pilon consegue colocar a relação entre ele e a mãe num local extremamente incómodo e ambíguo entre desejo sexual, ódio e adoração.

A mãe vive um contexto deslocado, o que pode muito bem ser identificado pelo guarda-roupa com influencia dos anos 70, tendo em conta que a acção passa-se em pleno ano 2015. Ela é uma mãe tão “perdida” quanto o filho, é uma mãe desamparada que já não sabe mais por onde se virar para tentar resolver a situação do filho que sofre de hiperatividade e por vezes torna-se violento. A mãe é surpreendida pela boa vontade da vizinha, Kyla, professora que demonstra interesse em ajudar a complicada família. Assim, vai modificando percepções, tabús, liberdades, “nomes feios”, “censuras” e vícios . E a relação entre mãe e filho melhora com a sua envolvência que traz um certo “equilíbrio” ao trio. Entre aspas porque nada que acontece entre eles pode ser considerado habitual, pelo impacto e, às vezes, violência envolvida.

Mommy é um daqueles raros casos que, ao terminar da sessão, deixa um sorriso de satisfação e, por que não?, encantamento. Pela ousadia ao implementar uma proposta tão ambiciosa, e executá-la tão bem, e também pelo excelente trabalho apresentado pelo elenco.
É um filme cruel, magistralmente bem feito.”