Review: Shame

shame

 

Crítica por: André Gomes

“Filme do britânico Steve McQueen, escolhe a cidade de Nova Yorque, símbolo máximo do mundo cosmopolita do século XXI, para a realização do mesmo.

Shame é um filme que busca provocar no público uma reflexão mais ampla do que a mera discussão em torno de como o sexo é percebido moral e socialmente no nosso tempo. Justamente por isso, o filme nega-se a desvendar o passado potencialmente traumático dos dois personagens centrais e teorizar sobre seus efeitos no presente deles.

O grande destaque vai, sem sombra de dúvida, para a dupla de actores. Michael Fassbender, foi fantástico ao encarnar “Brandon” e a cada filme que faz prova o porquê. É um óptimo actor, mostra-se confortável num papel difícil que exige muito mais que uma grande actuação.

O momento mais marcante é exactamente no clímax do filme, ao ter sexo com mais que uma mulher – eu fiquei a pensar sobre a quantidade de homens e mulheres que fazem o mesmo que ele – que vão em busca do prazer carnal, têm a necessidade de sentir prazer o máximo de tempo possível. Não é mau, é claro, sentir prazer. Mas buscá-lo daquela forma, simplesmente, sem nenhum apego ou risco de compromisso. Até que se encontre a pessoa que faça mexer com o nosso coração, não vejo mal nenhum ir em busca de aventura e do prazer sexual.

Numa cena cheia de cortes e desfoques, é no olhar de Fassbender que nos prendemos, há um certo pedido de desculpas pela vergonha da sua vida, há um olhar desesperado que pede por ajuda, é simplesmente impactante. Impressiona a actuação de Michael Fassbender, passa muita tristeza nos olhos por conta desse vício que sofre.

Carey Mulligan é uma coadjuvante de ouro, brilha de forma intensa, tem carisma e consegue criar uma personagem bem diferente do que a actriz já fez no cinema, desde as suas expressões, o seu jeito de agir e de falar, é uma outra mulher. Acredito que Mulligan tenha conseguido com “Sissy” (nome da sua personagem) chegar a um outro patamar, é, definitivamente, uma atriz completa, que se entrega de forma ousada e espanta pela sua incrível performance. E acredito que Steve McQueen tenha exposto no filme o melhor dos dois.

É o típico filme para se ver sozinho, admirar na privacidade. É quase que constrangedor dividi-lo com alguém. Há inúmeras cenas de nudez e sexo e isso pode incomodar os mais conservadores. Por outro lado, elas aparecem com intuito, com propósito, não é obsceno e muito menos apelativo, faz parte da proposta, que McQueen, consegue com competência nos mostrar este universo de “Brandon”. Entramos neste mundo “sujo”, vivenciamos naqueles minutos a intensidade daquela rotina. A nudez, por sua vez, surge naturalmente, sem querer ser sensual, apenas abre a porta daquele simples apartamento.

E assim, Shame, foge completamente do convencional, apesar da tal agressividade, o filme também consegue ser sensível, de forma sempre madura, há cenas deliciosas de puro diálogo, por vezes cómicas, outras, dramáticas.
Recomendo vivamente.”

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