Review: Love

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Crítica por André Gomes

“A história é centrada na relação a três entre Murphy (Karl Glusman), a sua namorada Electra (Aomi Muyock), e a vizinha, uma jovem chamada Omi (Klara Kristin).
Ela tem 16 anos, mas ninguém se importa com o facto de ser menor de idade.

O filme começa sem rodeios ao mostrar o protagonista Murphy deitado enquanto Electra o masturba por minutos. A cena não tem cortes e só termina quando ele ejacula.
Mais tarde, numa outra cena, há um momento em que Murphy ejacula em direção à camera e tudo fica muito bem evidenciado em efeitos em 3D.

Sexo vende sexo. Característico da natureza humana, há décadas acredita-se que o uso do apelo sexual é uma estratégia de venda eficaz, sendo empregado, então, comercial e culturalmente. Porém, ainda é um tabu. O sexo, quando atrelado a uma mensagem, tende a ofuscar tal conteúdo, promovendo apenas a si próprio.

Quantas vezes, por exemplo, já assistimos a um anúncio televisivo de perfumes com corpos esculturais em movimentos sugestivos e, depois de cinco minutos, misteriosamente não tínhamos a menor ideia de qual marca estava anunciando?
E quantas vezes já fomos ao cinema motivados por filmes que, prometendo revolucionar a representação do sexo, garantem cenas e práticas jamais mostradas nas telas?

Situado em Paris, diferente do que o cinema costuma representar, o filme acompanha Murphy, um jovem americano que leva uma vida infeliz ao lado de sua namorada, Omi, e do seu filho. Um dia, Murphy recebe uma ligação da mãe de Electra, sua ex-namorada, informando do desaparecimento da filha e dividindo sua supeita de suicídio.

Potencializada pela insatisfação e falta de perspectiva do personagem, a notícia desencadeia em Murphy uma série de lembranças afectivas e sexuais vivenciadas com Electra, que o conduzem a um poço de nostalgia e arrependimento.

Estruturado de forma não linear, Love prende a nossa atenção ao revelar, logo nas primeiras cenas, a narrativa psicológica, que nos faz querer saber e entender cada vez mais aquelas vidas apresentadas. Para deixar a constante alternância entre passado e presente correr de forma fluída e coesa, o filme cria com sucesso ferramentas e elementos que sempre situam o espectador no tempo das cenas, com a talentosa direção de arte.

Mas o grande destaque vai para a sempre linda fotografia de Benoît Debie que não apenas explicita a temporalidade das cenas com as suas cores e filtros, mas também contribui para a dimensão psicológica do próprio personagem.

Love, é mais uma obra de Noé Gaspar com a sexualidade no seu epicentro.
É uma história de amor sob o ponto de vista sexual, o que, à priori, pode parecer não só ousado como forçado. Como se não bastasse buscar satisfazer os seus próprios desejos,
é difícil de engolir as outras demonstrações egocêntricas e narcisistas de Noé Gaspar,
ao fazer referências às suas obras anteriores e a si mesmo.

Bom, vamos lá. Murphy tem um filho chamado “Gaspar”. No seu quarto, vemos uma miniatura em cores neon de um prédio chamado LOVE. Durante uma das diversas cenas de sexo com Electra, eles fazem no na rua com muito frio com um plano de fundo assustador de um túnel vermelho.

Ah, vamos lembrar também do ex-namorado de Electra chamado “Noé” (que vou deixar para vocês adivinharem quem interpreta esse papel). Por fim, Murphy é um estudante de cinema que pretende fazer filmes que unam amor e sexo.
Nessa lógica, poderíamos concluir, então, que a incapacidade do personagem de realizar esses filmes também é uma referência ao próprio realizador ?

O facto é que o sexo foi, é e sempre será um óptimo assunto para encher as salas de cinema. Porém, ultimamente estamos frustrados com algumas promessas que nos são feitas. E talvez seja aí que reside a maior vitória de Gaspar Noé, cumprir de forma corajosa o realismo que promete, o realizador coloca no seu filme praticamente tudo o que estamos, há alguns anos, querer ver no circuito comercial.

É um filme impróprio para pessoas sensíveis e púdicas, dentro do género de filme, Love está muito bom.

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