Review: The Walk

Crítica por André Gomes

“O filme narra-nos a performance do equilibrista francês Phillipe Petit que executou uma proeza que o colocou na História. Atravessou as Torres Gémeas de Nova Yorque ao andar num cabo de aço entre as duas torres no ano de 1974 sem qualquer permissão das autoridades ou equipamentos de segurança.

O realizador evita problematizar os motivos de Petit, os seus relacionamentos, e encontra no personagem apenas um voluntário para a verdadeira história que quer contar.

A história da “loucura” de Petit, além de ser uma metáfora viva do homem se lançar sobre o imenso vazio do mundo, movido pela sua ousadia, habilidade e elegância, e literalmente andar sobre o ar superando qualquer um que tenha meramente andado sobre a água, é também a história que se propõe a ser contada.

A qualidade técnica e a extraordinária habilidade com a qual Robert Zemeckis, o realizador, filma a inacreditável sequência de cerca de 17 minutos, coloca o espectador diretamente sobre a corda-bamba com Petit. A fotografia super realista, as câmaras de alta definição e o 3D muito bem usado, mais um realizador de Hollywood que está aprender a usar bem os recursos dessa tecnologia. Mais do que meramente evocar uma sensação, conseguem deixar o espectador verdadeiramente com vertigens.

Sim, nós sabemos que Petit não cairá. Mas ficamos com aquela sensação “eh pá sai daí antes que caias!” Eu pelo menos falo por mim, se fosse comigo eu ficaria seriamente preocupado, aliás nem me aventurava em tal coisa, mas parece mesmo que estamos na papel do actor. O resultado é, sem qualquer exagero, um espetáculo magistral de tirar o fôlego.

Joseph Gordon-Levitt contribui e muito para a empatia e credibilidade de Philippe Petit junto do espectador, como actor a convencer, não só quando tem de falar em francês, mas também inglês com sotaque, transmitindo a paixão deste equilibrista, bem como as suas obsessões, medos e receios, com este a ser representado como um protagonista que está longe de ser uma figura unidimensional. Este pratica actos quase ao nível dos super-heróis, embora não tenha poderes e seja uma figura humana comum, com um dom enorme para o equilibrismo (ainda que este talento seja bastante trabalhado), que conta com os seus defeitos e virtudes, um indivíduo que ama a vida mas não parece ter problemas em colocar a mesma em risco.

A empatia que Joseph Gordon-Levitt cria como Philippe Petit é essencial para inserir o espectador no enredo ou este não fosse o narrador de serviço, com a narrativa a deambular entre o presente e o passado, com o protagonista a servir de cicerone a exibir os episódios que o conduziram a este feito. Joseph Gordon-Levitt a convencer-me uma vez mais como um dos melhores actores da actualidade (na minha opinião). Já tinha gostado do seu trabalho nos filmes 500 Days of Summer e no Don Jon e esta foi a confirmação do seu talento.

Charlotte Le Bon que interpreta Annie, acaba por surgir mais discreta, com esta a interpretar o interesse amoroso do protagonista e cúmplice, embora pareça sempre faltar alguma chama a este namoro. Protagonizam um momento intenso numa discussão nocturna, tal como vivem alguns episódios mais leves, embora a missão de Petit, mais do que procurar a felicidade com Annie, pareça ser desafiar o destino e concretizar o seu sonho.

Vão juntar-se a Joseph Gordon-Levitt e a Charlotte Le Bon ainda figuras como Jean François interpretado por César Domboy, um professor de matemática com medo de alturas, Barry Greenhouse interpretado por Steve Valentine, um elemento que trabalhava nas Torres Gémeas; Jean-Pierre interpretado por James Badge Dale, o indivíduo que lhes vende os comunicadores para contactarem entre as Torres, entre outras figuras.

Nem todos os personagens secundários são explorados, algo visível numa dupla de tipos pedrados que pouca relevância atingem no enredo, tal como a relação entre Petit e Annie nem sempre é abordada com a assertividade necessária para que acreditemos que existe algo de muito forte a uni-los.

No meu ponto de vista a realização deste filme serviu de uma homenagem às desaparecidas Torres Gémeas. Não é um filme para nomeação para óscar, mas é um filme que dá para passar um bom momento, com uma história verídica, com destaque para uma boa actuação de Joseph Gordon-Levitt e bem realizada. Tem sinal positivo da minha parte.

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