Review: A Rapariga No Comboio

Crítica por: André Gomes

“Os comboios sempre fizeram parte de um certo imaginário cinematográfico. Desde o fascínio puro pelo movimento dessa máquina da era industrial, como o identificamos no filme dos irmãos Lumière de 1896, que apresentava a chegada de um comboio à estação de La Ciotat, é um dos exemplos que permitem reconhecer o protagonismo do comboio na construção atmosférica destas narrativas levadas ao grande ecrã.

De Noël Coward a Patricia Highsmith e Agatha Christie, muitos são, enfim, os autores que exploraram o adultério ou a culpa, entre os vapores inebriantes da locomotiva.

O argumento ficou a cargo de Erin Cressida Wilson que transportou a história dos subúrbios de Londres para os arredores de Nova Iorque. Percebemos a ideia, cativar o mercado e os espectadores norte-americanos, mas perder o céu cinzento de Inglaterra e as casas estreitas em banda para casas enormes com jardins cheios de árvores e flores corta metade do suspense que devia ter passado para o ecrã. Se este comboio falhou algum semáforo vermelho na linha, este foi o primeiro.

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Todos os dias, Rachel faz uma viagem de comboio, onde passa pelas casas dos subúrbios. Nas suas viagens de comboio, Rachel passa pela sua antiga casa, onde actualmente o ex-marido vive com a nova mulher e a filha de ambos. Para compensar a dor do divórcio recente Rachel observa a casa dos vizinhos e imagina uma vida perfeita e o casamento perfeito. Tudo aquilo que, basicamente, foi por água abaixo. Durante uma viagem, a protagonista vê algo de estranho que altera a ordem das coisas, principalmente com o desaparecimento de Megan Hipwell, a mulher que era a babysitter da filha do ex-marido.

A escolha de Blunt para o papel principal foi excelente escolha, ela faz um papel incrível. Confesso que teve um desempenho acima da média. Ela consegue transmitir o desespero da sua personagem Rachel, uma mulher sozinha e sem nada, que ao mesmo tempo é capaz de actos incompreensíveis, que não nos levam, ainda assim, a deixar de sentir empatia por ela. O momento em que, na casa de banho de um bar, coloca em palavras aquilo que realmente sente e o que era capaz de fazer é assustador, intenso e, ao mesmo tempo, uma espécie de purificação da alma. Gostei imenso do seu desempenho, pegou de destaque e foi brilhante.

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É impossível não viajarmos de comboio e não absorvermos o que se passa à nossa volta.
No âmbito dessa simbologia, intimamente ligada ao género thriller, A Rapariga no Comboio é um thriller de qualidade. Todos os aspectos, toda a tensão e todas as reviravoltas que a história dá, prenderam-me enquanto espectador à cadeira da sala de cinema.

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