Review: Uma História Americana

Crítica de Helena Rodrigues:

“Ewan McGregor estreou-se na realização com Uma História Americana, um conto de uma família que vive o sonho americano nos anos 60. Casado com uma ex-Miss, criando a uma filha angelical e a viver no meio do campo enquanto lidera o negócio das luvas, Swede Levov parecia ter tudo com que sempre sonhou.

Durante uma reunião de liceu o escritor David Strathairn relembra o momento em que se cruzou com famoso Swede e de como sentira uma grande admiração por ele, desconhecendo porém, a sua trágica história familiar. Começa assim uma narrativa que nos transporta para os anos 60, onde Ewan McGregor e Jennifer Connely representam o estereótipo de perfeição, com ambições bem definidas e um plano previamente traçado para os filhos que nascessem.

Aqui, é-nos dado uma leve indicação do que o futuro controlado e planeado não iria ser tal e qual como esperavam. A filha de Swede e Dawn – Merry – torna-se a prova irrefutável de que não há forma de fugir à imperfeição humana, mesmo vivendo uma vida cor de rosa e segundo os pârametros da sociedade da altura.

A pequena Merry é a personagem que visa quebrar a ideia de “perfeição”. Ela é acompanhada por uma psicóloga que confronta os pais, advertindo-os de que o problema de gaguez da filha poderá estar relacionado com uma luta interior da menina para competir com a perfeição que a rodeia, maioritariamente transmitada pela sua mãe. A partir deste momento, todos os comportamentos da pequena Merry começam a parecer-nos perturbadores e com uma tonalidade obscura. Na realidade, estamos apenas a testemunhar um “grito de revolta”, uma vontade de romper com o modelo padrão, ou até mesmo um pedido de ajuda que foi constantemente ignorado.

Os planos de cores suaves e alegres que nos apresentam a família Levov no início do filme, transformam-se aos poucos em planos escuros, onde as cores luminosas dão lugar a tons monocromáticos onde quase vemos as personagens desaparecer. Quando o que está a acontecer é o desaparecimento da “máscara” da família ideal.

Merry cresce e presta-se a crenças radicais e extremistas que vão devorando a família feliz, tal como se fosse um vírus. É aqui que Jennifer Connely brilha no papel da mãe Dawn. A transformação dela é a mais gritante, talvez por ser a personagem que mais se esconde por detrás de uma falsa aparência. Desde a mentira, ao desgosto, à loucura e de novo à falsidade, Jennifer é quem faz uma interpretação mais completa, representando em pleno aqueles que preferem ignorar os erros da família, passando a imagem que a sociedade espera dela. Ewan McGregor convence-nos nos momentos mais emotivos, especialmente ligados à sua filha, e o talento de Dakota Fanning acaba por ser desperdiçado na história.

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Sendo uma adaptação da obra de Philip Roth, o filme de Ewan tenta condensar a história da sociedade americana durante um grande período de revolta com a vida familiar decadente dos Levov, criando sempre um contraste entre o que de pior estava acontecer no mundo e a visão “ilusória” ou indiferente daqueles pertenciam a uma determinada elite, onde o que conta é o que o exterior.

A palavra inglesa “pastoral” tem como uma das suas várias definições “idílico”, mas nesta história é-nos apresentado de uma forma crua a incapacidade de atingir esse patamar, fazendo-nos cair  numa espiral negra que nos leva exatamente até ao oposto.

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