Review: Jackie

Por: Helena Rodrigues

O filme Jackie de Pablo Larraín mostra-nos os momentos vividos por Jacqueline Kennedy Onassis antes e logo após o assassinato do seu marido, na altura presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy. Como o próprio título do filme indica, a Primeira-Dama está em destaque e todas as outras personalidades que a acompanharam durante a tragédia estão em segundo plano. Aqui, todas as atenções recaem sobre Jacqueline, interpretada pela actriz Natalie Portman.

Portman esmerou-se para dar ao público uma representação exacta e fiel da personalidade incontornável de Jackie. Na sua pose, no seu ritmo, nos seus maneirismos e acima de tudo na sua maneira de falar. Nos primeiros minutos do filme, vemos uma recriação de uma visita à Casa Branca em Fevereiro de 1962, onde Jackie serviu de guia turística, ao abrir as portas do lar presidencial ao povo. A maneira como fala, como força um sorriso para as câmaras e como descreve com bastante interesse as cadeiras, as poltronas e papel de parede como se de elementos fulcrais para a sociedade se tratassem, revela-nos quem Jacqueline Kennedy era na verdade. Uma mulher que cumpria o seu papel como esposa do Presidente dos Estados Unidos e como mãe, sempre com elegância e simpatia mesurada, transparecendo uma vida perfeita e cuidada, que das portas para dentro estava longe de o ser. Vamos sendo direcionados para uma comparação entre as futilidades e acessórios que preenchem o interior da Casa Branca e a vida de fachada que a família levava – eventualmente são referenciadas as indescrições do Presidente na altura.

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Para alguém como eu, que não acompanhou de forma atenta e profunda a história de Jackie, estava longe de imaginar que o seu sotaque iria acabar por ser um pouco distractivo. Inicialmente, parece que Portman faz um esforço enorme para falar. Tentei abstrair-me do facto, presumindo que a actriz sabia o que estava a fazer – mais tarde acabei por pesquisar alguns vídeos de Jacqueline, e de facto a senhora tinha uma forma muito específica de falar – no entanto, e talvez por assumir um controlo tão grande dessa especificidade, o que difere entre a representação de Portman e a Jackie dos vídeos, é que a verdadeira apresentava mais naturalidade no olhar e no sorriso, uma particularidade que pode ter ficado perdida em Portman, não me levando a acreditar nela a 100%.

No entanto, não há como negar o impacto que a actriz tem no grande ecrã numa cena que acaba por deitar por terra todas as ideias pré-concebidas que podemos ter de uma mulher que continua a agir de forma fria e controlada após a morte do marido. A dada altura somos sóapenas nós e Jacqueline na sala de cinema. Vemo-la a soluçar, em desespero, enquanto limpa o sangue do marido do rosto. Esse é um momento, que nos faz esquecer todas a frivolidades que teimam em aparecer ao longo de todo o filme. Vemos uma mulher que testemunhou a morte do próprio marido com um tiro na cabeça, mesmo ao seu lado. O seu mundo colapsou, mas Jackie optou por permanecer uma figura inabalável perante o público.

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Natalie consegue revelar mais sobre o estado emocional da sua personagem durante uma cena em que se passeia pela Casa Branca, após a tragédia, trocando de vestidos e de comprimidos, escolhendo jóias e bebidas. Mais uma vez, é a sua forte interpretação que nos arrasta e que nos faz compreender – ou pelo menos tentar compreender – o que se passa no seu interior.

O filme está nomeado para os Óscares na categoria de Melhor Banda Sonora Original (para além das categorias de Guarda-Roupa e Melhor Actriz Principal), no entanto a música do filme não me agradou. Com sons dramáticos como som de fundo em momentos que talvez merecessem uma certa ligeireza, acabou por me parecer várias vezes desenquadrado.

Jackie não é um filme que irá agradar a todos pelo seu ritmo lento e a representação tão pormenorizada de Portman pode levantar alguns sobrolhos, mas é um filme que merece ser visto nem que seja para conhecermos melhor a história de um dos eventos mais marcantes que ocorreram nos Estados Unidos.

Ver vídeo: A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy

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